ALAP | Associação Latino-Americana de Publicidade

Quer fazer a diferença? Que tal fazer menos?

Quer fazer a diferença? Que tal fazer menos?

  • dezembro 6, 2018

Nunca tivemos tantos modelos de liquidificadores.

De carros.

De calças.

De brinquedos.

De cuecas.

De celulares.

De TVs.

De máquinas de fazer pipocas.

Nunca tivemos tantos gadgets, nunca tivemos tantos softwares, tantos apps (e aqui, um dado curioso: 99,99 % deles viram lixo, nunca são utilizados, ou seja, são pura perda de tempo, de dinheiro, de perspectivas).

Nunca tivemos tanto para comprar e tão pouco tempo para usufruir.

E, pior: Quanto mais coisas temos – e cada vez temos mais coisas – não estamos mais felizes.

Aliás, bem ao contrário, estamos cada vez mais frustrados.

Temos milhões de vídeos no Youtube a assistir, bilhões de sites a bisbilhotar, 300 canais na TV para zapear, trocentas redes sociais a furungar e isto em vez de nos agradar, de nos tornar mais plenos, mais humanos, mais nos oprime.

Não conseguimos acessar todos os sites.

Não conseguimos abrir todos os links de vídeos que nos mandam.

Não conseguimos ver todos os programas de TV.

Não conseguimos mais acompanhar todos os jogos do campeonato.

Não conseguimos ler todos os posts do Facebook. Do Instagram. Do Twitter. Do LinkedIn. Do cacete a quatro.

O uátz apita e nos irrita.

A tela é interrompida por avisos de publicação.

Mais e mais, sempre.

Temos cada vez mais e mais nos frustramos.

Não conseguimos mais experimentar a variedade de pães à nossa disposição.

Não conseguimos mais degustar todos os rótulos de vinhos que nos surgem.

Não conseguimos mais tomar todos os sucos, ler todos os livros, ver todos os filmes, comer todas os chocolates, vestir todas as marcas, beber todas as cervejas, experimentar todos os iogurtes, testar todos os xampus.

Temos cada vez mais e mais nos frustramos.

Eis, então, que o mundo do marketing passa a pregar uma compulsão quase doentia por explorar formatos e plataformas, gerando conteúdo prolífico e diverso, tudo no afã de a marca se tornar omnichannel.

Multitudo.

Onipresente.

Basicamente, de novo, a comunicação reflete a sociedade.

Mais uma vez, a “propaganda” (multiforme) meio que retrata um mundo atual que prega que o negócio é fazer mais, vender mais, produzir mais, comer mais, engajar mais, consumir mais, vivenciar mais, beber mais, envolver mais…

Certa feita – num simpósio muito louco em Boston – ouvi de uma professora de Wharton, a seguinte colocação:

“Em vez de pensar em vender mais, em empurrar mais do mesmo aos consumidores cada vez mais infelizes e irresponsáveis, assuma seu papel na história e pense qual vai ser a sua contribuição, qual a sua maneira de ajudar seu consumidor, seu cliente, sua cidade, o país, o planeta e a humanidade? Como seus produtos podem ajudar as pessoas a viverem melhor – não fazendo mais do mesmo – na vida real?”

Pensando e agindo assim, o marketing passaria a ser um jogo de muito mais do que oportunidades para vender mais, acabando por se tornar um negócio de detectar e aproveitar o que poderíamos chamar de “oportunidades sociais”.

Em vez de empanturrar o mercado com mais um modelo de batedeira, o desafio é pensar em alguma tecnologia capaz de fazer bem às pessoas, de impactar-lhes de maneira nova, gerando soluções para a vida.

Pense em produtos que possam ajudar as pessoas em sua realização pessoal.

Pense nas pessoas.

Procure necessidades humanas que ainda são obscuras, desconhecidas, ou melhor, estão escondidas.

Fazendo o bem para a vida real, sempre haverá perspectivas para seu produto.

No futuro, apregoa ela, o crescimento de mercado virá dos sentimentos de gratidão para com a marca, não mais pura e simplesmente de slogans publicitários.

Não pense mecanicamente, em como somente vender mais.

Baita insight:

Pensar dinamicamente, como melhorar a vida das pessoas.

Produtos. Sistemas. Objetos.

Baita insight:

Em vez de poluir timelines por aí, produza uma ideia que faça a diferença.

Um filme. Uma ação. Algo remarkable!

Seja inesquecível. Impacte. Pare de encher o saco.

Do nada, eis que surge um pensamento contraditório:

 “Faça menos! Faça a diferença! O mundo lhe agradecerá!”

Por Luciano Vignoli.

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